Num país com disponibilidade hídrica desigual, as empresas terão de avaliar não apenas o preço da água, mas a segurança do abastecimento, a qualidade exigida pelo processo e a capacidade de operar em períodos de restrição.

Em 30 segundos
  • A escassez hídrica em Portugal é territorialmente desigual: a análise deve ser feita por bacia, massa de água, origem de abastecimento e perfil de consumo.
  • A preparação empresarial mede-se menos pelo consumo absoluto e mais pela capacidade de reduzir a dependência de água doce em períodos de escassez.
  • Fontes diversificadas, reutilização, recirculação, licenças robustas e planos de continuidade devem passar a integrar a decisão de investimento desde o início.

A água deixou de ser apenas uma rubrica de custo, uma questão de eficiência ambiental ou um capítulo dos relatórios de sustentabilidade. Para uma parte crescente do investimento empresarial, tornou-se uma condição material de viabilidade: influencia a escolha da localização, o desenho do processo produtivo, o calendário de licenciamento, o custo de capital e a capacidade de manter a operação quando a disponibilidade diminui.

A água passa a ser uma variável de localização, licenciamento, continuidade de negócio e capacidade de expansão.

Esta mudança não autoriza simplificações. Portugal não enfrenta uma condição hídrica uniforme, nem o país pode ser descrito, de forma genérica, como um território sem água. A disponibilidade depende da bacia hidrográfica, da recarga dos aquíferos, do armazenamento, da procura local, da época do ano e, sobretudo, da origem que cada instalação consegue mobilizar: água superficial, subterrânea, reutilizada ou marinha.

A questão empresarial relevante deixa, por isso, de ser apenas onde há água?. Passa a ser outra: que empresas conseguem produzir com menor dependência de água doce, com origens alternativas tecnicamente viáveis, títulos de utilização robustos e condições para manter uma produção mínima durante períodos de escassez?

Um risco que deve entrar mais cedo na decisão

Em 24 de junho de 2026 entrou em vigor a Estratégia Nacional de Gestão da Água, «Água Que Une». A estratégia prevê 294 medidas e um investimento estimado de cerca de 5 mil milhões de euros até 2035, com prioridades como eficiência, redução de perdas, reutilização de águas residuais tratadas, reforço do armazenamento, digitalização e dessalinização onde necessária.

O significado empresarial desta estratégia não está em presumir que a infraestrutura futura resolverá automaticamente os riscos presentes. A própria resolução condiciona a assunção de encargos à existência de dotação disponível pelas entidades públicas competentes. A estratégia define direção política e prioridades; não garante, por si só, financiamento, execução ou capacidade disponível em cada território e para cada projeto.

Ao mesmo tempo, a seca meteorológica continua a ser um dado relevante para a gestão do risco. A última leitura confirmada pelo IPMA, relativa ao final de setembro de 2026, indicava que apenas 0,7% do território continental se encontrava em situação normal. Cerca de 38,6% estava em seca fraca, 44,2% em seca moderada e 16,5% em seca severa, com maior expressão das classes moderada e severa no Sul, sobretudo no interior.

Estes números não devem ser lidos como uma fotografia uniforme do país em 31 de outubro. São, porém, um sinal suficiente para que os promotores deixem de tratar a água como uma verificação administrativa tardia, feita depois de escolhidos o terreno, a tecnologia e a capacidade de produção.

O mapa da água não coincide com o mapa da precipitação

A localização empresarial exige uma leitura mais fina do que a média regional ou nacional. No final do ano hidrológico de 2024/2025, a Agência Portuguesa do Ambiente classificava as bacias do Mondego, Mira e Ribeiras do Algarve — Barlavento em seca hidrológica moderada. Em contraste, outras bacias, incluindo Douro, Tejo, Guadiana e Arade, encontravam-se em condição húmida. A informação consta do Relatório do Estado do Ambiente.

A diferença mostra que a precipitação, isoladamente, não responde à pergunta decisiva para uma fábrica, um empreendimento turístico ou um centro de dados. Importam também a capacidade de armazenamento, a situação dos aquíferos, a concorrência entre usos, a robustez da rede local, a qualidade requerida pelo processo e a possibilidade de tratar ou reutilizar água.

Em maio de 2026, a APA levantou restrições adicionais ao licenciamento de captações em diversas massas de água subterrânea, incluindo Moura-Ficalho e parte relevante do Algarve, após a monitorização de 313 pontos. A decisão, descrita pela Agência Portuguesa do Ambiente, confirma dois pontos importantes: as condições podem evoluir e uma licença de captação não deve ser tratada como um direito imutável nem como uma garantia perpétua de expansão.

Da tarifa à continuidade operacional

A captação de água, a rejeição de efluentes e outras utilizações relevantes dos recursos hídricos exigem título de utilização emitido pela APA. Para atividades económicas, os pedidos são submetidos através do Licenciamento Único de Ambiente, no SILiAmb. A avaliação considera disponibilidades, impactes e compatibilidade com outros usos.

Na prática, isto transforma a água num risco empresarial com quatro dimensões. A primeira é a capacidade: pode não existir volume disponível, ou esse volume pode não ser fiável para uma nova unidade, uma expansão ou o aumento de turnos. A segunda é a qualidade: água existente não significa necessariamente água apta para incorporação, lavagem, arrefecimento, produção de vapor ou processos de elevada pureza.

A terceira dimensão é regulatória e temporal. Licenças, renovações, restrições e exigências de tratamento têm de entrar no calendário realista do projeto e no respetivo custo de capital. A quarta é a continuidade: uma instalação dependente de uma única origem de água doce fica mais exposta a seca, pressão concorrencial sobre o recurso e limitações administrativas.

A métrica decisiva não é apenas quanta água uma empresa consome, mas quanta água doce adicional precisa de captar quando o território entra em escassez.

Onde pode estar a vantagem competitiva

Não existe uma classificação pública e comparável que permita declarar quais são as empresas portuguesas mais preparadas. Há, contudo, características verificáveis de preparação.

A primeira é a integração em infraestruturas com várias origens de água. Na Zona Industrial e Logística de Sines, a Águas de Santo André passou, em fevereiro de 2025, a operar um modelo de gestão integrada de água doce, água reutilizada e água do mar. Segundo o Governo de Portugal, a intenção é adequar a qualidade da água ao uso industrial, reservando recursos convencionais para necessidades que o justifiquem e admitindo pequenas unidades privadas de dessalinização para promotores com requisitos exigentes.

A lição não é que Sines resolva automaticamente a questão da água para qualquer investimento. Cada promotor terá ainda de confirmar volumes, qualidade, custos, ligações, licenças, prazos e, quando aplicável, as condições ambientais associadas à dessalinização e à rejeição de salmoura. Mas zonas com operador especializado, tratamento de efluentes e fontes diversificadas podem oferecer uma vantagem estrutural face a projetos isolados, dependentes de uma captação própria ou de uma única rede.

A segunda característica é a redução comprovada da dependência de água nova. A The Navigator Company mantém desde 2017 um programa de redução do uso de água, com a meta de diminuir em 33% a utilização específica até 2030, face a 2019. A documentação da empresa refere recuperação de águas de processo, fecho de circuitos, recirculação e reutilização de efluente tratado na ETAR 2 do complexo de Setúbal. No seu reporte de 2024, indicou que a reutilização direta de efluente tratado em Setúbal visava 500 mil metros cúbicos por ano e referiu ensaios com cerca de 720 metros cúbicos diários reutilizados em circuito industrial.

Isto não demonstra imunidade à escassez hídrica. Demonstra algo mais preciso: investimento operacional já realizado para reduzir a quantidade de água fresca necessária por unidade produzida.

A terceira característica é o conhecimento público da exposição por instalação. A Galp identificou a refinaria de Sines como instalação prioritária em matéria de risco hídrico e reportou que 64% das instalações operadas pelo grupo estavam em zonas de stress hídrico elevado ou extremamente elevado, segundo a sua metodologia interna. Identificar e divulgar a exposição é um sinal de maturidade de gestão. Não deve, porém, ser confundido com prova de que o risco foi resolvido. Entre medir o risco e controlar o risco existe uma diferença material: fontes alternativas, redundância, contratos, circuitos fechados e planos de contingência.

Uma grelha para investidores, empresas e autarquias

Uma empresa mais preparada deverá conseguir demonstrar, por instalação e não apenas ao nível agregado do grupo, cinco condições essenciais.

  • Origem diversificada de água, compatível com as exigências técnicas do processo.
  • Redução mensurável da captação de água doce por unidade física de produção ou outro indicador operacional relevante.
  • Recirculação, recuperação de condensados, tratamento complementar de efluentes e utilização de água com a qualidade adequada a cada uso.
  • Títulos de utilização válidos, volumes autorizados, margem de capacidade e pressupostos de renovação conhecidos.
  • Um plano de continuidade para períodos de seca, incluindo armazenamento, prioridades de consumo, produção mínima e protocolos de abastecimento.

A reutilização será uma parte central desta resposta, mas não é uma solução universal. O enquadramento legal permite a utilização de água para reutilização proveniente de águas residuais tratadas em usos compatíveis, incluindo usos industriais. Ainda assim, a viabilidade depende da qualidade exigida, do tratamento necessário, da proximidade entre a ETAR e o consumidor, da rede de distribuição e do enquadramento aplicável.

A dessalinização também deve ser analisada sem entusiasmo automático. Pode criar uma origem complementar relevante para consumos industriais de grande escala, mas exige energia, investimento, licenciamento, captação e rejeição marítima com exigências ambientais próprias. A decisão racional compara custo total, segurança de abastecimento e impacte ambiental; não apenas o preço de captação de água doce.

Por fim, a eficiência dentro da fábrica não elimina a dependência da infraestrutura coletiva. Em 2024, a água não faturada nos sistemas em baixa situou-se, em média nacional, em 26,5%, o menor valor da década, mas ainda uma fração relevante da água que entra nas redes sem chegar a ser faturada. Nos sistemas em alta, o indicador foi de 5,2%, acima do objetivo de 5%.

A interpretação é simples: uma empresa pode tornar-se mais eficiente internamente e continuar vulnerável a uma rede local com perdas, limitações de armazenamento ou pouca redundância. A água é, por isso, uma decisão empresarial, mas também uma condição territorial.

As empresas melhor colocadas para operar num Portugal mais seco não serão necessariamente as que apresentam o menor consumo absoluto. Serão as que conseguirem demonstrar menor dependência marginal de água doce em escassez, fontes de abastecimento diversificadas, direitos de utilização sólidos, reutilização tecnicamente testada e inserção numa infraestrutura capaz de responder quando a disponibilidade deixa de ser normal.

Fontes e referências
  1. Resolução do Conselho de Ministros n.º 133/2026, de 24 de junho | DR ↗
  2. IPMA - Monitorização da Seca Meteorológica ↗
  3. Seca e cheias | Relatório do Estado do Ambiente ↗
  4. Levantamento de restrições de licenciamento em massas de água | Agência Portuguesa do Ambiente ↗
  5. Licenciamento online | Agência Portuguesa do Ambiente ↗
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AC

Alexandre Calapez

Escrevo sobre estratégia, liderança, fiscalidade e economia, procurando trocar reação por contexto e tornar as decisões mais claras.